Albert Camus
Eu não sei se há um redator para a história do universo. Mas gostaria de lhe dar os parabéns pelo enredo. No que me compete, tem sido uma aventura cheia de emoções das mais diversas, oferecendo um crescimento muito grande para as personagens.
Há desafio, derrota, aprendizado, vitória.
Há sorriso, lágrima, abraço. Música, grito, oração e suspiro.
E há amor, numa quantidade imensurável, disponível para quem realmente quiser sentir.
Eu olho a minha história, cada capítulo.
Revejo cada momento aflitivo, cada saída encontrada.
Cada decisão tomada, cada opção descartada.
Cada sim, cada não, cada silêncio determinante.
É exatamente o que nós temos, não é? Escolhas e conseqüências.
A vida é tanto uma jornada quanto um passeio.
Tanto um desafio quanto um deleite.
Tudo e muito mais.
Quando voei pela primeira vez, segurei-me na poltrona do avião na decolagem. Um conflito de emoções, uma profusão de sentimentos. O instinto primitivo alertando do perigo de perder o contato com o chão, a alegria de desafiar a gravidade...
E então, elas vieram.
Manadas de nuvens fofinhas, brancas, perfeitas demais para se descrever. Unindo-se aos poucos, tornando-se uma coisa única, um indescritível mar de nuvens até aonde a vista alcançava, o avião navegando por um esplêndido oceano branco.
Lá, totalmente fora do meu ambiente, da rotina, senti-me profundamente em casa.
Havia naquele céu, naquelas nuvens, algo de extraordinariamente íntimo.
Na explosão de sentimentos que me dominavam, demorou algum tempo pra entender como a excitação, o deslumbramento e até algum medo tornaram-se unos com aquele sentimento de êxtase, de pertencimento. Parecia impossível sentimentos tão díspares transformarem-se numa única e poderosa sensação, mas ali estava eu, experimentando algo completamente novo.
Não era mais o Camilo, estudante.
Não era mais o Camilo, funcionário.
Não era o Camilo filho, irmão, ser social.
Sequer era o Camilo como um ser humano.
Não era nenhum Camilo que eu conhecesse.
Era o único Camilo que importava.
Eu e tudo o mais. Vendo dali, nada da nossa rotina viciada tinha importância.
O mundo continuava seu caminho, independente de nossas vontades.
Mesmo que o avião caísse, as nuvens continuariam ali, como se nenhum sonho tivesse sido abruptamente rompido, nenhuma voz fosse definitivamente calada.
Senti um profundo respeito e admiração por tudo o que existe.
Senti que era parte de tudo e que tudo era parte de mim.
Foi um momento sublime. Morrer ou viver não importavam: havia algo muito maior do que isso, o próprio universo pulsando em cada átomo. Quando pousamos, eu havia passado pela experiência mais intensa e maravilhosa da minha vida.
Recapitulando, só havia conseguido encontrar outra situação tão arrebatadora. Era uma tarde fresca, a chuva caindo agradavelmente, o cheiro do mato úmido me entupindo de entusiasmo. Os cavalos estavam quase prontos e, após alguns milhos e afagos, montei na égua mais velha da chácara. Desde o momento em que nos olhamos, aquela sintonia tornou-se evidente. Queríamos, a égua e eu, sorver tudo o que aquele dia tinha para nos dar.
Normalmente lenta e desanimada, Gateada (era esse o nome da minha parceira de quatro patas) disparou alegre pelo mato num ritmo vigoroso, um galope harmonioso e apaixonado. Logo atrás, era preciso dar algumas chicotadas para que os outros cavalos nos acompanhassem.
Não precisei incentivar Gateada a correr. Era exatamente o que ela queria.
Em determinado momento, notei que sequer as rédeas pareciam necessárias: numa simbiose inexplicável, égua e homem pareciam saber perfeitamente o que e como cada um queria.
E então, preenchido por aquele sentimento maravilhoso de inclusão, soltei as rédeas, abri meus braços e, em pleno galope, fechei meus olhos e deixei que a chuva me abraçasse, os pingos caindo fortes contra meu rosto, nossa velocidade alimentando seu poder (não, não corríamos contra a chuva: éramos todos uma coisa só, égua, chuva, homem, mato).
Uma coisa só.
Que coisa é essa?
O que é isso que pude sentir tão vivamente, tão plenamente, para dentro e para muito além de mim?
Como explicar isso? Como justificar, como atribuir significado?
Talvez a melhor pergunta: faz alguma diferença qual o nome que eu dou para essa sensação?
Posso chamar do que quiser.
Posso explicar como achar melhor.
Nada muda o que senti. Nada diminui sua importância.
Veja pelo prisma que quiser, quer seja pelos olhos da ciência, da filosofia, da fé.
Eu senti. Carrego minha própria verdade.
A chuva cai novamente no meu rosto, navego novamente o mar de nuvens.
O Universo circula nas minhas veias, infla meus pulmões.
Eu e o tudo mais, uma coisa só.
Todos somos Promethea
Um comentário:
Somos, realmente, todos Promethea!
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