Um lugar novo e com peculiaridades interessantes.
As escadas não possuem qualquer via de contato com o universo exterior.
Luzes artificiais dão ao tempo nenhum significado: dia ou noite, a claridade (e a falta dela) nas escadarias é a mesma.
Um tempo morto.
Um não-tempo.
As pessoas se reúnem nas escadarias, pequenos grupos escondidos, dividindo danones, rindo baixo, ofendendo algum chefe ou cliente, fumando.
Vez ou outra, uma pessoa sentada, lendo algum livro grande e de letras miúdas.
Ao passar, é impossível ignorar a sensação de invasão: tanto os grupos quanto os solitários estão ali desfrutando de um não-tempo particular, íntimo. A minha passagem não é só uma intrusão em sua intimidade, mas uma lembrança física e ostensiva de que, como eu, também o tempo passa por ali. E que há, atravessando as portas de segurança, um animal voraz esperando pelo suor de cada dia.
As escadarias são apenas um caminho para mim, mas a eles se apresentam como um fim.
Parar em qualquer andar que seja dá no mesmo.
Cor, som, luz, espaço, tudo é idêntico nas escadarias.
O limbo reconfortante em meio ao mundo corporativo.
Como as palavras ecoam, é preciso falar baixo.
Como é preciso falar baixo, as pessoas precisam estar próximas.
Como as pessoas precisam estar próximas, os olhos se encontram inevitavelmente.
Como os olhos se encontram, não há surpresa em constatar que, inúmeras vezes, as escadarias ganham um toque de romantismo.
Se os ecos tivessem uma vida mais longa, as escadarias seriam um ninho de beijos perdidos no tempo.
É tudo calmo, tranqüilo e seguro ali.
Um outro prédio, quase outro plano de existência.
Bem ao meu lado, ali, ignorado por tantos, um novo universo para explorar.
Um não-tempo particular.
Todos somos Promethea
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